
A paixão pelo futebol ignora fronteiras. Em Salvador, o caldeirão do Estádio Manoel Barradas provou ser o lugar perfeito para acolher duas histórias de vida distintas, mas unidas pelo mesmo rugido.
A Bahia tem a fama histórica de enfeitiçar quem chega de fora. Para a mexicana Icoos Angélica (38 anos de idade) e a venezuelana Andry Criollo (21), os encantos de Salvador foram apenas o primeiro passo de uma jornada que terminaria nas arquibancadas do Barradão.
Longe de suas terras natais, com bagagens culturais riquíssimas e sotaques próprios, elas encontraram no Esporte Clube Vitória não apenas um time para torcer, mas uma verdadeira pátria emocional.
Esta é a história de como o sangue de guerreiras latinas se misturou à raça do Leão da Barra.
O Destino e a Travessia
Nenhuma das duas planejou exatamente desembarcar em Salvador, mas a vida cuidou dos roteiros. Para Angélica, a capital baiana parecia um chamado do destino. Na adolescência, na Cidade do México, ela leu uma reportagem sobre Salvador em uma revista no consultório do pai. Anos depois, em 2003, conheceu seu marido em uma sala de bate-papo na internet. Onde ele morava? Em Salvador. Em 2008, ela cruzou as fronteiras e oficializou a mudança. “Às vezes eu penso que talvez eu tenha sido baiana na minha vida passada e só estivesse voltando para casa”, brinca.
Para Andry, a travessia foi fruto de resiliência. Fugindo da crise econômica na Venezuela, ela migrou ainda muito jovem para a Colômbia. Mais tarde, seu companheiro recebeu uma proposta para ser professor em Salvador. Hoje, Andry estuda português na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e reconstrói sua vida no Brasil.
Se para Andry o primeiro ano foi de adaptação ao idioma e à saudade de casa — amenizada pela culinária diária muito parecida com a venezuelana —, para Angélica o choque cultural foi um espetáculo à parte. Acostumada com o clima seco e frio do México, ela se sentia “virando um abará” no calor baiano. Estranhou o uso universal do chinelo (“Chinelo na rua, no shopping, para resolver a vida inteira!”), as pessoas dançando do nada e o contraste brutal de celebrar o Natal suando. O ápice da falta de intimidade com os trópicos? “Fui à praia usando tamanco, minissaia e um casaco jeans!”, diverte-se Angélica.
Mas o povo soteropolitano, com sua hospitalidade ímpar, abraçou as duas. Faltava apenas algo para selar a naturalização de vez: o futebol.
A Conexão com a Bola: Do Pumas ao “Chama Samu”
O futebol nunca foi novidade para elas. Andry era a única menina em uma família cheia de garotos, jogava todos os dias com os primos e chegou a treinar no time feminino do Estudiantes de Mérida, na Venezuela.
Já Angélica cresceu nas arquibancadas torcendo para o Pumas, equipe da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), acompanhando a família em rituais dominicais repletos de tacos e resenhas.
Curiosamente, a primeira ponte de Angélica com a Bahia veio de um ídolo do Pumas: Cabinho, o maior artilheiro da história do Pumas, nascido na Cidade Baixa, em Salvador.
A aproximação com o Vitória, no entanto, seguiu caminhos curiosos. Quando Andry morava na Colômbia, um vídeo viralizou no seu celular: era o influenciador Vitu Gomes cantando o hit rubro-negro “Chama Samu”. Foi seu primeiro contato com o clube. Ao chegar a Salvador, amigos tentaram, pela pressão social, fazê-la torcer para o rival. Ela chegou a ir a um jogo do Bahia contra o América de Cali (time que adotou na Colômbia), mas torceu para os colombianos. A chama não acendeu.
Para Angélica, a influência veio do marido rubro-negro, mas a decisão final foi identitária. “Quando descobri que o mascote era um leão, eu disse: pronto! Pumas e o Leão pertencem à mesma família dos felinos. Representam força, garra e paixão. Além disso, os dois clubes têm o orgulho de revelar grandes talentos para o futebol.”
O Batismo de Fogo no Barradão
O momento do “sim” definitivo para ambas aconteceu no mesmo lugar mágico: o Santuário do Barradão. E, por uma daquelas coincidências do futebol, contra o mesmo adversário, o São Paulo — contudo, em partidas e épocas diferentes.
Cansada da “pressão social”, Andry foi levada ao Barradão pelo amigo Felipe para ver o Vitória vencer o time paulista por 2 a 0. Ali, tudo mudou. “A energia que toda a torcida transmitia, aquele amor puro… foi indescritível”, relembra. “Todos comemoravam desde o início com absoluta certeza, como se soubessem que iam ganhar. As músicas são incrivelmente contagiantes. Nunca senti nada parecido na Venezuela.”
Angélica também teve sua catarse contra os paulistas. Levada por um tio do marido, ela se deparou com a festa no entorno do estádio. Viu as ruas tomadas de vermelho e preto, o pagodão nos carros e até experimentou o famoso “churrasquinho de gato” (achando, de fato, que era carne de gato). “Quando entrei e vi a multidão, o Barradão parecia ter vida própria. O mexicano é um povo bagunceiro e festeiro, então, quando vi aquela energia, pensei imediatamente: ‘É aqui que eu quero ficar!’ Eu já estava de olho nos Imbatíveis”, conta, aos risos.
Leoas Sem Fronteiras
Hoje, ser Vitória é parte fundamental da identidade delas na Bahia, um amor que transbordou das arquibancadas para a internet. Em dias de jogos, as duas fazem questão de registrar a rotina rubro-negra e compartilhar a relação passional com o clube em suas redes sociais.
A vivência da venezuelana Andry pode ser acompanhada no Instagram pelo perfil ancm_0503, enquanto a mexicana Angélica mostra seu lado torcedora no icoos.y.chiquita. Andry já garantiu seu plano de sócia-torcedora para não perder um jogo. “O Vitória me fez sentir em casa. É como um time do povo: humilde, acessível e com pessoas amigáveis. Recebi muito apoio de todos os torcedores”, afirma a venezuelana.
O sentimento ecoa na mexicana Angélica, que encontrou na resiliência do clube o espelho da sua própria vida. “Ser Leoa vai muito além de torcer. É ter raça quando a vida aperta, cair e levantar. É carregar no coração a alma de uma guerreira asteca, o espírito resiliente de um Pumas e a raça infinita de um Leão da Barra.”
No fim das contas, a arquibancada do Barradão provou que não importa se você nasceu comendo arepa, tacos ou acarajé. Quando a torcida canta e o Leão entra em campo, a língua falada é uma só. O idioma do Vitória.
Por DONATO DE ASSIS
Jornalista e torcedor do Vitória
Foto: Reprodução/Instagram
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